Tuesday, December 2, 2008

Deslindar


“So we have come back to where we started. If a career in the academic social sciences will bring us neither wealth nor power nor fame, and if we cannot even count on being able to influence public policy or public opinion, we might as well forget all extrinsic motives based on considerations of instrumental rationality. If we decide to commit our lives to doing social science, we must rely on intrinsic motives – and the best one I can imagine is a desire to add to our collective understanding of the social world in ways that would not be possible in any other line of work. True, the knowledge we will able to gain will not be valid everywhere, and it will not endure for the ages. But for our own time and place, it may be the best knowledge that can be obtained. If you accept that, you should feel free to follow Max Weber’s advice: Let your own deep value commitments guide you in selecting your research topics, even if others might seem more promising from a career perspective. Good social science is terribly hard to do, and you will not be at your best working on questions that you don’t care about. But with all these caveats, let me also assure you: The life of the social scientist has its own and unique rewards, and if you care about these you should be congratulated for having chosen well.”

 

Scharpf, F.W. “Social science as a vocation: are Max Weber’s warnings still valid?”, Max Weber Programme lecture series,
Florence: European University Institute, 2007: 14

 

 

Há dias em que me odeio por ter seguido este caminho e odeio-me por não saber, ainda, lidar com todas as suas implicações…

O constante questionamento é cansativo, tira-nos forças e por vezes só apetece desistir. Mas no fundo sei que nunca poderei fazê-lo porque aquilo que sinto quando tenho a certeza, quando me deixo inundar pelo prazer da descoberta, do conhecimento, da partilha de opiniões, é o que me faz saber que não poderia gostar verdadeiramente de fazer outra coisa.

O que sei é que vou sentir falta de me sentir parte de uma comunidade que encara a investigação como profissão, que trabalha dia após dia para cumprir objectivos específicos, individuais e/ou de pequenos colectivos, mas também para um objectivo comum: o de aumentar o conhecimento sobre nós e o mundo que nos rodeia, saber mais e melhor, fazer ciência.

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Friday, November 7, 2008

Desculpas!


Finalmente as palavras voltam, creio porque finalmente começo a reencontrar-me .

Há quem pense que é nestas situações, em que nos encontramos longe de todos os que conhecemos e enfrentamos um mundo totalmente novo, que revelamos o nosso verdadeiro eu. Eu penso exactamente o contrário, até porque o tenho visto acontecer. As pessoas que se vêem numa situação nova, longe da sua realidade, podem ser e fazer o que quiserem, simplesmente porque ninguém conhece a sua personalidade. Tenho visto pessoas a serem muito evidentes, faladoras, a vestir-se de forma a dar nas vistas, que mais tarde começam a relaxar, a conter-se nas suas intervenções e a vestir-se como sentem à vontade. E o contrário também. O difícil nestas situações não é a adaptação, essa acaba por se fazer, naturalmente, com o passar dos dias. Pouca gente consegue anular-se a si própria durante muito tempo, fingindo ser outra. Mais tarde ou mais cedo as redes de conhecimento acabam por se ir consolidando e o apoio social no qual baseamos o nosso eu começa a construir-se. Porque na relação com as pessoas de quem gostamos e que gostam de nós que fazemos quem somos - pelo menos é o que eu penso. A dificuldade está no primeiro momento, aquele em que decidimos, ou não, que tipo de pessoa vamos ser para enfrentar o desconhecido.

Pela parte que me toca tenho estado bastante “metida para dentro” o que, para quem me conhece, pode parecer estranho. Mas foi esta a forma que encontrei, por vezes consciente, outras inconscientemente, de lidar com a novidade, a estupefacção, a necessidade de reflexão, a saudade, o isolamento. Aliás, quem me conhece mesmo bem sabe que não sou uma pessoa muito aberta nos primeiros contactos, o que até me vale a fama de “mau feitio”. Por isso, no fundo, não se trata de grande novidade, a não ser que tem durado um bocadinho mais de tempo.

Mas o resultado foi um período muito produtivo para a minha tese, a que o meu orientador chamou de “efervescência mental” e agora, que começo a ter “amigos” em vez de “conhecidos” por estas bandas, mas também muito devido à visita dos pais e à breve visita do namorado, começo a encontrar-me.

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Tuesday, September 23, 2008

Desconcertante

E eis que fiquei sem palavras…
de saudade…
de surpresa…
de nostalgia…
de beleza…
de sonho…
de amizade…
de arrebatamento…
de dúvida…
de amor…

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Thursday, August 28, 2008

(Des)enraizar


A matriz do meu ser encontro-a aqui, entre as trovoadas, o cheiro a terra molhada e as montanhas - enormes, verdes, castanhas, azuis – que, ao longo da linha do horizonte, nos acompanham sempre. Aqui revisito-me, aqui as baterias do bem-estar recarregam-se, aqui estão as minhas raízes. Tal como na companhia da família, nos encontros com aqueles amigos, na cidade que sempre conheci, no colo do amor, também aqui consigo encontrar aquilo que nunca perco, mas de que às vezes me afasto. Não porque queira ser outra coisa, mas porque quero ser também outra coisa e para isso às vezes é preciso abrir espaço. Em breve será mais um desses momentos, em que as raízes ficam mais longe e mais perto que nunca.

Posted by Inês in 20:15:55 | Permalink | Comments (1) »

Saturday, June 21, 2008

(Des)entendimento


Ela tenta não chorar. Não se percebe o que dizem, nem sequer se estão verdadeiramente a discutir, mas ela tenta não chorar, porque a cara dela mostra uma expressão despreocupada e arrogante, mas os lábios tremem e os olhos suplicam. Ela acha que tem razão mas tem medo de perder. De o perder. Ele sabe que tem razão e sabe que ela vai ceder. Ele, descontraído, de chinelos, calções e t-shirt. Ela, arrumada, de blusa de gola alta e manga curta e brincos. Olham para a janela, lá para fora, como se a distracção pusesse água na fervura. Costuma resultar nas dicussões desviar a atenção para outro lado e comentar algo exterior ao centro do mundo, eles. Silêncio. Ou o tema esgotou-se ou chegaram a uma conclusão. Ou simplesmente adiaram o (des)entendimento? E eis que um deles volta à carga, porque há um elefante em cima da mesa, que eles não conseguem esquecer nem pôr para o lado. Ela finge estar distraída, pergunta o quê? para reflectir na resposta que vai dar, olhando insistentemente para o telemóvel. Ele olha para ela e obriga-a a concentrar-se na conversa, com o seu olhar inquisidor e a sua postura expectante, como que dizendo como é? vamos resolver isto ou não? Ela olha lá para fora, desvia o olhar dele para não ter de o enfrentar. Não quer o entendimento por que o caminho até lá é demasiado doloroso. Mas por que é que comecei esta conversa? Quem me dera passar à frente!, pensa, mas ele não deixa, agora que começou tem de acabar, não pode haver mal entendidos! Mas custa, têm de dizer coisas que doem dizer e ouvir outras que doem ouvir… Vamos embora? Mais uma distracção, mais uma (des)conversa, mais um adiamento do (des)entendimento…

 
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Monday, June 2, 2008

Descrever


As palavras não fluem e o sentimento é avassalador, incontrolável mesmo e por isso tão difícil de descrever. Não necessitaria de descrição - porque o sentimento é isso mesmo, é para ser sentido e não falado - não fosse o roçar da imaginação a perturbar-me a minha realidade, não fosse a surpresa de algo que não estava à espera, não fosse o pensamento a mil na minha cabeça. Sou sistemática, sempre fui, preciso de esquemas, de calendários, de listas, de cronogramas, mesmo que quase nunca os cumpra. Preciso para não me perder nas minhas vontades, que de tão variadas e sinceras formam um mar onde nadar é infrutífero, porque não chego a lado nenhum. Não se não traçar um caminho. Por momentos, nestes momentos, deixo-me ir, sem planos, sem sistematizações, sem previsões futuristas, só para saborear a dádiva que me foi dada e dar graças, não a um deus mas à vida. Mas não consigo deixar as palavras, mesmo que infiéis e imprecisas. E para colmatar a minha falta de jeito para descrever recorro, inconscientemente, a quem sabe:

Corcovado

Um cantinho e um violão
Este amor, uma canção
Pra fazer feliz a quem se ama

Muita calma pra pensar
E ter tempo pra sonhar

Da janela vê-se o Corcovado
O Redentor que lindo

Quero a vida sempre assim com você perto de mim
Até o apagar da velha chama

E eu que era triste
Descrente deste mundo
Ao encontrar você eu conheci
O que é felicidade meu amor

O que é felicidade, o que é felicidade

                                      Tom Jobim

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Tuesday, May 27, 2008

Desdizer


Dizer sem dizer, dizer sem falar, dizer com o olhar ou um olhar, dizer com um gesto, o gesto, dizer com uma forma de estar, a nossa forma estar. Dizer e ficar a meio, dizer implícito, dizer para bom entendedor (ou não dizer, quando não se entende), não dizer, dizendo. Palavras que se sentem e não se dizem, porque não é preciso, porque não se consegue, porque não é a altura, porque não se tem a certeza. Pensar que se diz e não se diz, pensar que não se disse e afinal, disse-se. Querer dizer e não conseguir encontrar as palavras certas e dizer, mesmo não querendo, porque o nosso corpo fala mais que a nossa boca.

Posted by Inês in 15:56:56 | Permalink | No Comments »

Monday, May 19, 2008

Destempo


Já não sou daqui… Não tenho lugar neste espaço, é pequeno demais para o que sinto, é estreito demais para a amplitude das minhas imagens, não me sinto em casa… É espaço de um espaço de tempo definido que já passou, é espaço fora de horas… É espaço que me é emprestado de vez em quando, quase ilicitamente, quase por contrabando… É espaço que fez parte integrante e agora….não…

Posted by Inês in 18:10:33 | Permalink | Comments (1) »

Monday, April 14, 2008

Este post podia ter vários títulos: desprender, desfazer, desfiar, desmanchar, desapossar-se, despir, desarticular, descomedir-se, descorar, desencadear-se - tudo o que é preciso para iniciar uma viagem…


Mulher no barco, Noronha da Costa (1997)


Posted by Inês in 16:23:16 | Permalink | Comments (1) »

Saturday, March 22, 2008

Desmistificar


Para todos aqueles que se sentem desajustados, atípicos, fora de “normal”, que sentem que não querem o que os outros querem, que sentem que aquilo que a sociedade quer para eles não é o que eles querem; para todos aqueles que se sentem um pouco loucos, à sua maneira, ou simplesmente…eles próprios!

Balada do Louco

Dizem que sou louco
por pensar assim
Se eu sou muito louco
por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Se eles são bonitos,
Sou Alain Delon
Se eles são famosos,
Sou Napoleão
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu
 
Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no ar
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor 
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu
 
Sim sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz
Mas louco é quem me diz
Que não é feliz, 
Eu sou feliz

Interpretação: Ney Matogrosso
Composição: Arnaldo Baptista e Rita Lee
In: ”Bugre”, 1986

http://www.youtube.com/watch?v=XUXwBQnyEZw

Por sinal, parece-me que somos cada vez mais, os que se sentem diferentes dos outros, os que não se sentem “normais”, pelo menos são cada vez mais as pessoas com quem tenho falado que exprimem estes sentimentos… No fundo acho que não há ninguém normal e por isso andamos todos enganados sobre o que supostamente devemos ser mas não queremos ser! E que tal deixarmo-nos de mitos urbanos e apenas passarmos a fazer as nossas escolhas, conscientemente mas com um pouco da nossa loucura?

Posted by Inês in 22:12:22 | Permalink | Comments (1) »