Saturday, June 21, 2008

(Des)entendimento


Ela tenta não chorar. Não se percebe o que dizem, nem sequer se estão verdadeiramente a discutir, mas ela tenta não chorar, porque a cara dela mostra uma expressão despreocupada e arrogante, mas os lábios tremem e os olhos suplicam. Ela acha que tem razão mas tem medo de perder. De o perder. Ele sabe que tem razão e sabe que ela vai ceder. Ele, descontraído, de chinelos, calções e t-shirt. Ela, arrumada, de blusa de gola alta e manga curta e brincos. Olham para a janela, lá para fora, como se a distracção pusesse água na fervura. Costuma resultar nas dicussões desviar a atenção para outro lado e comentar algo exterior ao centro do mundo, eles. Silêncio. Ou o tema esgotou-se ou chegaram a uma conclusão. Ou simplesmente adiaram o (des)entendimento? E eis que um deles volta à carga, porque há um elefante em cima da mesa, que eles não conseguem esquecer nem pôr para o lado. Ela finge estar distraída, pergunta o quê? para reflectir na resposta que vai dar, olhando insistentemente para o telemóvel. Ele olha para ela e obriga-a a concentrar-se na conversa, com o seu olhar inquisidor e a sua postura expectante, como que dizendo como é? vamos resolver isto ou não? Ela olha lá para fora, desvia o olhar dele para não ter de o enfrentar. Não quer o entendimento por que o caminho até lá é demasiado doloroso. Mas por que é que comecei esta conversa? Quem me dera passar à frente!, pensa, mas ele não deixa, agora que começou tem de acabar, não pode haver mal entendidos! Mas custa, têm de dizer coisas que doem dizer e ouvir outras que doem ouvir… Vamos embora? Mais uma distracção, mais uma (des)conversa, mais um adiamento do (des)entendimento…

 
Posted by Inês in 23:45:13 | Permalink | Comments (2)

Monday, June 2, 2008

Descrever


As palavras não fluem e o sentimento é avassalador, incontrolável mesmo e por isso tão difícil de descrever. Não necessitaria de descrição - porque o sentimento é isso mesmo, é para ser sentido e não falado - não fosse o roçar da imaginação a perturbar-me a minha realidade, não fosse a surpresa de algo que não estava à espera, não fosse o pensamento a mil na minha cabeça. Sou sistemática, sempre fui, preciso de esquemas, de calendários, de listas, de cronogramas, mesmo que quase nunca os cumpra. Preciso para não me perder nas minhas vontades, que de tão variadas e sinceras formam um mar onde nadar é infrutífero, porque não chego a lado nenhum. Não se não traçar um caminho. Por momentos, nestes momentos, deixo-me ir, sem planos, sem sistematizações, sem previsões futuristas, só para saborear a dádiva que me foi dada e dar graças, não a um deus mas à vida. Mas não consigo deixar as palavras, mesmo que infiéis e imprecisas. E para colmatar a minha falta de jeito para descrever recorro, inconscientemente, a quem sabe:

Corcovado

Um cantinho e um violão
Este amor, uma canção
Pra fazer feliz a quem se ama

Muita calma pra pensar
E ter tempo pra sonhar

Da janela vê-se o Corcovado
O Redentor que lindo

Quero a vida sempre assim com você perto de mim
Até o apagar da velha chama

E eu que era triste
Descrente deste mundo
Ao encontrar você eu conheci
O que é felicidade meu amor

O que é felicidade, o que é felicidade

                                      Tom Jobim

Posted by Inês in 16:10:20 | Permalink | Comments (2)