(Des)entendimento
Ela tenta não chorar. Não se percebe o que dizem, nem sequer se estão verdadeiramente a discutir, mas ela tenta não chorar, porque a cara dela mostra uma expressão despreocupada e arrogante, mas os lábios tremem e os olhos suplicam. Ela acha que tem razão mas tem medo de perder. De o perder. Ele sabe que tem razão e sabe que ela vai ceder. Ele, descontraído, de chinelos, calções e t-shirt. Ela, arrumada, de blusa de gola alta e manga curta e brincos. Olham para a janela, lá para fora, como se a distracção pusesse água na fervura. Costuma resultar nas dicussões desviar a atenção para outro lado e comentar algo exterior ao centro do mundo, eles. Silêncio. Ou o tema esgotou-se ou chegaram a uma conclusão. Ou simplesmente adiaram o (des)entendimento? E eis que um deles volta à carga, porque há um elefante em cima da mesa, que eles não conseguem esquecer nem pôr para o lado. Ela finge estar distraída, pergunta o quê? para reflectir na resposta que vai dar, olhando insistentemente para o telemóvel. Ele olha para ela e obriga-a a concentrar-se na conversa, com o seu olhar inquisidor e a sua postura expectante, como que dizendo como é? vamos resolver isto ou não? Ela olha lá para fora, desvia o olhar dele para não ter de o enfrentar. Não quer o entendimento por que o caminho até lá é demasiado doloroso. Mas por que é que comecei esta conversa? Quem me dera passar à frente!, pensa, mas ele não deixa, agora que começou tem de acabar, não pode haver mal entendidos! Mas custa, têm de dizer coisas que doem dizer e ouvir outras que doem ouvir… Vamos embora? Mais uma distracção, mais uma (des)conversa, mais um adiamento do (des)entendimento…
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23:45:13
Nota ao leitor: nem tudo neste blog se refere a mim!
Inês
Eu acho que não deves ter os teus leitores em tão pouca conta… Eu fiquei com vontade de saber mais sobre esta história, é um retrato muito credível desse instante na vida das duas pessoas que imaginaste.